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Anitta: a mí me gusta la dominação mundial

Quando ouvi Sergio Affonso, presidente da Warner Brasil, dizer na série documental Vai, Anitta, que desde Carmem Miranda e Tom Jobim, nenhum outro artista brasileiro havia chegado tão longe no mercado internacional quanto Anitta naquele momento, fiquei bem abismada! Desde então, passei a acompanhar a construção dessa nova carreira, e hoje, foi dado um passo largo. Com o lançamento de Me Gusta, single do seu novo disco, com previsão de lançamento ainda para 2020, Anitta está oficialmente no jogo do mercado fonográfico norte-americano e rumo à dominação mundial.

anitta-clipe

Mas antes…

Anitta começou a flertar com o mercado latino ainda em 2014, mas foi com Sim ou Não, com participação de Maluma, que seu nome passou a figurar com mais força fora do Brasil. Em sua série documental, Anitta explica que, depois da experiência com Maluma, resolveu apostar fortemente em outros mercados, e Paradinha, cantada em espanhol, foi o primeiro produto criado com essa finalidade. 

Por que não em português? Temos que entender alguns pontos antes. Dentro da América Latina, somos o único país que fala português e isso nos isola. Ainda que, culturalmente semelhantes, o idioma não nos conecta em muitos aspectos. E isso se reflete na música que cada um consome e com que se relaciona, com certeza. Por exemplo, o Brasil é o que mais ouve músicas no próprio idioma e o reggaeton, de longe, é o gênero mais consumido por nós, diferente da maioria massiva dos países hispanofalantes.

Então, uma artista que canta espanhol pode adotar estratégias mais assertivas, já existe um caminho muito bem explorado, principalmente para o reggaeton. E Anitta entendeu isso cedo. Por isso, sua estratégia sempre prezou pela inserção de elementos sonoros e linguísticos genuinamente brasileiros, de maneira gradual. Até chegar a Me Gusta, ela precisou transitar por muitos estilos, que, estrategicamente, nada tem a ver com o funk carioca ou qualquer outro gênero musical brasileiro.

Primeiros produtos

É interessante pontuar, que mesmo Anitta pertencendo à gravadora Warner Music, uma das três maiores do mundo, ela é contratada da divisão brasileira, que não opera globalmente. Portanto, para a artista conseguir explorar o mercado americano foi necessário encontrar pessoas confiáveis nos EUA, que conheciam as dinâmicas de divulgação e venda de sua música dentro daquela cultura. E começar do zero.

Depois que conseguiu uma boa parceria, ela precisava de um produto muito bem colocado e com números atraentes para chamar a atenção de quem estava lá fora. Neste contexto, e no Vai, Anitta isso é muto bem detalhado, a artista chega ao projeto CheckMate.

#CheckMate

Em 2017, entre setembro e dezembro, foram lançados quatro singles e seus respectivos videoclipes altamente produzidos. Todo o projeto foi patrocinado pela C&A. E o principal objetivo era se apresentar para o mercado estrangeiro como uma artista completa. As músicas transitaram entre pop, EDM, reggaeton e funk carioca. A cada lançamento, Anitta superava seu próprio recorde. Como pontuou Sergio Affonso, a “Anitta é como uma atleta de alta performance”. Mas foi com Vai, Malandra, último lançamento do projeto, que ela ganhou o olhar de pessoas importantes.

O clipe bateu a marca de 8 milhões de visualizações em menos de oito horas e levantou um mar de debates em diferentes frentes. Há quem glorificou o fato de Anitta, depois de três videoclipes com imagens muito bem tratadas, fechar o projeto mostrando como seu corpo de fato é e com as celulites que qualquer outra brasileira sabe que tem. É engraçado escrever isso, miga, mas o poder daquela bunda, do jeito que é, nos primeiros segundos de Vai, Malandra fizeram toda diferença. A repercussão viria, mas uma cena na ordem certa e no clipe certo, podem marcar para sempre o mundo pop.

Por outro lado, há quem apontou que Anitta, ao usar tranças e aparecer com a pele muito mais escura que o habitual, estaria praticando apropriação cultural ou sendo afroconveniente. Não cabe aqui aprofundar isso agora, mas é um bom debate. O fato é que tudo isso deixou o buzz mais longo e ela entrou pela primeira vez em charts internacionais. Objetivo cumprido e atenção ganha. Tanto ao projeto CheckMate, quanto ao EP Solo, lançado no ano seguinte, foram as primeiras validações de Anitta do seu produto, para o mercado latino, principalmente.

Feat pra que te quero

Ano passado foi chuva de feat da Anira, lembra? Praticamente, um para cada nicho e mercado. Ela usou dessas parcerias muito estrategicamente, dentro e fora do Brasil. Aqui, para se consolidar de vez como uma das maiores e mais completas artistas, e lá fora, para ganhar ainda mais o mercado latino.

Madonna, Black Eyed Peas, Rita Ora, Sofia Reyes e Diplo, foram primordiais para que ela ganhasse relevância com pessoas estratégicas, principalmente nos EUA. O sucesso de público não teve peso aqui.

No mercado latino, ela conseguiu ainda mais espaço por conta de participações com J Balvin novamente, Luis  “Despacito” Fonsi, Becky G e Greyci. Além disso, fez parte dos jurados do La Voz México (The Voice). No Brasil, fez parceria do funk à mpb. Passando pelo feminejo e pagodão.

Mudança de planos

Estes resultados, somados à sua participação emblemática no Rock in Rio Brasil e o lançamento do álbum Kisses, possibilitaram ao seu novo empresário, Brandon Silverstein (também empresário de Normani, ex-Fifth Harmony), negociar um contrato de Anitta diretamente com a divisão americana da Warner Music Group, a Warner Records, que possui operação e influência global. Então, Anitta renovou seu contrato com a Warner Brasil e assintou com os EUA. Depois de especulações, em junho, foi anunciado oficialmente o lançamento de um novo disco, que tudo indica receberá o nome de Girl From Rio.

A pandemia mudou a ordem das coisas para Anitta. O que estava certo para começar com Me Gusta e uma divulgação internacional pesada partindo do festival californiano Coachella, no fim, precisou de muita adaptabilidade e, principalmente, paciência.

First, Tócame

Enquanto sua equipe, já internacional, planejavam a nova rota dos lançamentos, que estão todos prontos, assistimos Anitta saindo de aulas diárias com professoras e professores prejudicados pela pandemia para uma das três pessoas politicamente mais influentes do país, perdendo apenas para o presidente e Felipe Neto. Isso é muito grande do ponto de vista da carreira dela. É muito mais do que ser relevante, é a tal da autoridade que você cria, no caso dela consolida. A partir deste momento, ela passou a, realmente, ocupar um lugar enquanto influenciadora e isso foi muito importante para potencializar tudo que viria depois.

Em julho chegou Tócame, primeiro lançamento via Warner Records, que atingiu o objetivo dessa etapa. Foi a música em espanhol mais tocada nas rádios mexicanas e figurou em outros charts latinos.

Era gamer

Quando retornou de uma temporada intensa na Itália, Anitta chamou de novo atenção ao anunciar que faria lives no Facebook Gaming jogando Free Fire, título da Garena que vem batendo recordes de audiência no Brasil. Depois de alguns dias, ela revelou que sim, ela gosta de games, mas claro, é parte da estratégia de divulgação internacional. Quando seus empresários descobriram que ela já jogava em casa, a encorajaram a virar streamer também. A indústria do gamer não para de crescer e tem estreitado cada vez mais relações com a música e Anitta está explorando este potencial. Em sua primeira transmissão reuniu cerca de 800k assistindo.

A maior ferramenta de divulgação de um artista são os shows, as turnês, o contato direto com os fãs e isso não está acontecendo na maior parte do globo. Então, perceba que Anitta e sua equipe estão buscando alternativas para não deixarem o lançamento perder a potência e o alcance que teriam com o Coachella, por exemplo.

Girl From Rio

Importante frisar, Anitta já possui uma carreira internacional. Estes novos trabalhos servirão para dar amplitude ao seu nome lá fora. Sobre o novo disco, ela revelou que Tócame, lançado em julho, seria o único reggaeton e que, mesmo sendo um disco para o mercado internacional, leia-se Estados Unidos, seus fãs brasileiros se sentiriam representados. Lembra quando falei sobre a preocupação da Anitta em avançar gradualmente com a inserção do funk e da cultura brasileira em outros países? Esse trabalho, que poderá se chamar Girl From Rio (título de uma das faixas), reflete muito isso para mim.

Me Gusta

Antes de Anitta cantar em português para os estadunidenses, ela vai apresentar com o novo trabalho a sonoridade brasileira. Se em Kisses ela apostou em ritmos já consumidos lá fora, agora Anitta pretende apresentar o Brasil de outra forma. Quando ouvi Me Gusta, realmente, senti isso. É pagode baiano, arrocha e funk, mas não deixa de ser pop. Cantado em inglês e português, mas ainda é música brasileira, sem dúvidas.

Arriscado? Sim! Reggaeton seria um lugar confortável, talvez. A deixaria no limbo dos estereótipos. Mas pela escolha do produtor executivo do disco, Ryan Tedder, vocalista da banda OneRepublic e premiado por ter trabalhado com Taylor Swift, Beyoncé, Adele e outros grandes nomes do pop, faz sentido ela não querer este lugar.

Parece que o objetivo de Anitta tem muito mais a ver com ser reconhecida internacionalmente como uma artista brasileira completa, independente do idioma cantado. O foco dela é a sonoridade e ela começou muito bem mostrando Me Gusta.

Referências musicais locais

Para que a faixa soasse de verdade o pagode baiano e arrocha, Anitta convocou para a produção musical, o DJ e produtor baiano Rafa Dias, que foi quem criou o beat, ou seja, a batida (e que batida!!!) de toda música. A guitarra é de Chibatinha, outra referência da música baiana. Tanto Rafa, quanto Chibatinha, pertencem ao grupo ÀTTØØXXÁ, referência no gênero e da música independente. Anitta adotou uma postura muito generosa e importante aqui, a de enaltecer ritmos regionais brasileiros e também de elevar artistas locais. Na letra, ela, Cardi B e o rapper porto-riquenho Mike Towers, celebram todas as mulheres, principalmente as latinas, e as bad bitches também, me gustan toditas, como diz Cardi.

Mas e a Cardi B???

Pois é! Ano passado, Cardi B e Anitta gravaram um funk juntas, mas pandemia, again, atrapalhou o lançamento, planejado para 2020. Portanto, já existia uma relação entre elas e ter agora a Warner Records investindo nesta carreira, muitos caminhos ficam mais tranquilos de serem trilhados. Então, Cardi recebeu a música da equipe gringa da Anitta e, realmente, gostou.

É muito doido pensar que, se não tivesse pandemia, Anitta lançaria Me Gusta antes e no Coachella. No fim das contas, os atrasos e seus desdobramentos, criaram um cenário também interessante, ainda que diferente do plano inicial. Agora, ela tem em sua faixa uma das maiores rappers do momento, e que está em primeiro lugar do Top 100 Global da Billboard há três semanas com WAP. Isso potencializa a divulgação. As participações de Cardi B, tanto no clipe quanto na gravação da música, foram feitas dos EUA. Sim, operaram o milagre do digital no videoclipe!

Me Gusta foi gravado inteiramente em Salvador. Um grande desfile de moda no Pelourinho, mega colorido e diverso. Os looks apresentados na passarela foram confeccionados por designers e estilistas baianos, e boa parte do casting também é local.

Outro destaque é a presença da Didá, um dos grupos de percussão mais importantes do país e composto somente por mulheres negras. Foi fundado há 25 anos, por Neguinho do Samba, criador do samba reggae, e hoje é liderado por sua filha. A Didá realiza um trabalho social também, que consiste em formar e fortalecer mais mulheres percussionistas, ambiente tradicionalmente ocupado por homens. Anitta aparece entre elas em algumas cenas tocando e vestindo as cores da bandeira da Bahia.

Estratégia pe-sa-da

Como você deve imaginar, a divulgação e a estratégia estão intensas. Com planos refeitos e uma pandemia global, a Anitta teve que alterar a ordem dos lançamentos para esquentar a nova audiência. Sabemos que a maior base da Anitta é a brasileira, mas durante a promoção destes novos trabalhos toda sua comunicação será direcionada para fora. O objetivo é expandir o território internacional da música da Anitta, ou seja, foco no alcance, de fato.

Antecipação

Anitta começou a preparar sua base de fãs ao longo dos últimos sete dias até culminar no lançamento. O buzz principal foi causado por um vídeo em que aparece muito surpresa ao perceber que na versão final de sua música há uma participação grandiosa. Foram alguns dias mantendo o mistério, mas por causa do vazamento da capa, ela precisou soltar a confirmação antes.

TikTok

Sim, sempre ele. Eu disse no post da Manu Gavassi, não disse? A plataforma é parceira e tem sua marca mostrada no clipe. Além disso, auxiliou na criação de um pré-challenge de Me Gusta. Antes do lançamento, já havia no TikTok 15 seg. exclusivos para quem quisesse realizar o desafio.

@anitta

Precisó aprender o espacate (sei lá como que escreve) …. saudade elasticidade

♬ Me Gusta (with Cardi B & Myke Towers) – Anitta

Me Gusta em playlists oficiais

Com o lançamento via Warner Records, Me Gusta entrou em playlists oficiais das mais diferentes plataformas de streaming que você imaginar. Isso é muito importante para difusão de uma música hoje em dia.

Educando a nova audiência

Anitta sabe que a música brasileira é muito nossa. Esperar que sua nova audiência entenda isso de cara, é mirar para o fracasso. Por isso, ela está educando sua nova base em seu Instagram. Ela já contou a história em inglês e espanhol do grupo Didá, e hoje postou um vídeo que mostra exemplos de funk carioca, pagode baiano e arrocha. Na legenda, em inglês, ela explica aos gringos o que são estes gêneros e ritmos musicais brasileiros que estão presentes em Me Gusta.

Ação Amazon

Ontem quem usou a assistente virtual Alexa, da Amazon, deu bom dia, mas quem respondeu foi a Anitta. Se liga, miga.

Imprensa internacional

Anitta está em todos os sites gringos importantes e até na fachada da Times Square. A assessoria de imprensa está trabalhando muito para fixarem o nome da Anira onde conseguirem. Talvez, a cobertura maior é a sua participação na próxima quarta-feira no programa do Jimmy Fallon, sim, aquele famosão!

A mí me gusta la dominação mundial

Enquanto finalizo este texto, Me Gusta já bateu dezenas de recordes, já é #1 no Brasil e o nome da Anitta está onde nenhum outro artista brasileiro chegou até agora. É prematuro apontar algo sobre a expansão da carreira internacional dela antes do disco inteiro sair. O que posso chutar é que o norte apontado é bem interessante. Vamos aguardar ansiosas!

Pesquisadora e criadora de conteúdo. Acumula 16 anos trabalhando com música, sendo os últimos dois dedicados à pesquisa musical com foco em mercado, comportamento, história e identidade.

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